Acordo mantém médicos das UTIs do Hospital da Criança por mais 60 dias em São Luís
Conselheiros tutelares fazem ato em apoio às famílias de crianças mortas Um acordo mediado pelo Ministério Público do Maranhão (MP-MA) garantiu, por mais ...
Conselheiros tutelares fazem ato em apoio às famílias de crianças mortas Um acordo mediado pelo Ministério Público do Maranhão (MP-MA) garantiu, por mais 60 dias, a manutenção dos serviços dos médicos que atuam nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) Pediátricas do Hospital da Criança Dr. Odorico Amaral de Matos, em meio às denúncias de possíveis falhas no atendimento. 📲 Clique aqui e se inscreva no canal do g1 Maranhão no WhatsApp A audiência foi conduzida pelo promotor de Justiça Herberth Costa Figueiredo, da 19ª Promotoria de Justiça Especializada de Defesa da Saúde, e contou com representantes da Secretaria Municipal de Saúde (Semus), da Procuradoria-Geral do Município (PGM) e do Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED), responsável pela gestão das UTIs da unidade. De acordo com o Ministério Público, a audiência ocorreu após a empresa solicitar um reajuste de 114% no contrato firmado com a Semus. O pedido foi apresentado em 22 de abril, em resposta à consulta da secretaria sobre a renovação do Contrato nº 339/2025. O contrato original com a empresa era de R$ 4,77 milhões por ano. Após um termo aditivo assinado em março deste ano, o valor passou para R$ 5,36 milhões anuais, o equivalente a R$ 446,6 mil por mês. Com o pedido de reajuste, o IBMED solicitou que o valor mensal fosse elevado para R$ 956,9 mil, totalizando R$ 11,48 milhões por ano. Segundo a empresa, o aumento seria necessário para compensar um déficit operacional mensal de R$ 559,5 mil, provocado pelo crescimento dos custos para manter as equipes médicas. Ainda de acordo com o instituto, o desequilíbrio financeiro ocorreu após 51 médicos intensivistas pediátricos recusarem vínculo com a empresa. Diante desse cenário, foi necessária a contratação de profissionais de Teresina (PI), o que gerou despesas com transporte, hospedagem e alimentação. O IBMED informou ainda que comunicou a situação ao Ministério Público em 2025 e que esse contexto fundamenta o pedido de reequilíbrio econômico-financeiro do contrato. A Secretaria Municipal de Saúde informou que o pedido de reajuste está relacionado ao aumento dos custos para a contratação de médicos de outros estados. Já a Procuradoria-Geral do Município afirmou que uma eventual recomposição financeira depende da realização de estudos técnicos. Na manifestação encaminhada à Semus, o IBMED cita um parecer técnico-contábil e outros documentos que, segundo a empresa, demonstram a necessidade de reequilíbrio econômico-financeiro do contrato. O instituto também menciona manifestações da Coordenação de Compras e Contratos da Semus, do Ministério Público de Contas e uma decisão do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA). Secretaria pediu contratação emergencial de médicos A Secretaria Municipal de Saúde elaborou, na manhã de quinta-feira (16), um memorando solicitando, em caráter emergencial, a contratação de uma empresa especializada para manter os serviços médicos da UTI Pediátrica do Hospital da Criança. O documento aponta que a medida seria necessária para evitar a interrupção da assistência diante do impasse nas negociações com o IBMED. A prefeitura considerou que os valores apresentados não eram vantajosos. De acordo com o documento, o reajuste solicitado provocaria um impacto orçamentário de 114,25%. O texto afirma que a contratação emergencial busca garantir o atendimento imediato às crianças, assegurar a continuidade da assistência e evitar o agravamento de quadros clínicos por falta de profissionais. A unidade possui 29 leitos e, segundo o memorando, enfrenta dificuldades para manter a escala de médicos intensivistas pediátricos. A proposta prevê a contratação de 14 profissionais, entre coordenadores, plantonistas e diaristas. A audiência de mediação no Ministério Público ocorreu às 12h do mesmo dia. Caso seja autorizada, a contratação emergencial terá duração de 12 meses, sem possibilidade de prorrogação. Diretora do hospital e médicas da unidade prestam depoimento Julieta Carvalho Rocha, diretora do Hospital da Criança, prestou depoimento à polícia Reprodução/TV Mirante Julieta Carvalho Rocha, diretora do Hospital da Criança Dr. Odorico Amaral de Matos, prestou depoimento, nesta sexta-feira (17), à Polícia Civil do Maranhão no inquérito que apura o aumento de mortes de crianças registradas na unidade hospitalar e as mortes dos meninos Bento e Bernardo. Ela chegou acompanhada por um advogado do setor jurídico do hospital e prestou depoimento por mais de 1h. Na quinta-feira (16), outras duas médicas do Hospital da Criança prestaram depoimento à Polícia Civil em São Luís. De acordo com o delegado Joviano Furtado, responsável pelo inquérito, apesar de a mãe e das médicas que atenderam o menino Bernardo na sala de estabilização terem informado que a família solicitou um leito de UTI, mas foi avisada de que não havia vaga disponível, a diretora afirmou em depoimento que não teve conhecimento dessa situação. Segundo ela, a criança recebeu atendimento em uma sala com estrutura semelhante à de uma UTI. Sobre a investigação que apura o aumento de mortes de crianças na unidade, a diretora declarou que a empresa responsável pela gestão das UTIs enfrentou dificuldades para contratar novos profissionais após a celebração do novo contrato, já que parte da equipe anterior não aceitou as novas condições de trabalho. Ela também afirmou que o aumento no número de mortes de um ano para o outro foi considerado irrelevante. "Existe no depoimento uma informação da própria mãe da vítima de que ela solicitou a transferência do filho para a UTI e, conforme os depoimentos, isso não ocorreu por falta de vaga. No entanto, a diretora afirmou que o atendimento foi realizado em um local com estrutura semelhante à de uma UTI. Ela também disse que o aumento no número de mortes foi irrelevante, pequeno. Segundo ela, em 2024 foram registradas 113 mortes e, em 2025, 117. Ela considerou esse aumento pequeno e dentro da normalidade. Ainda de acordo com o depoimento, a empresa contratada teve dificuldade para contratar profissionais e precisou recorrer a médicos de outros estados", afirmou o delegado. Médicas prestam depoimento em inquérito sobre morte de criança no Hospital da Criança Bernardo morreu no dia 2 de julho, seis dias depois de dar entrada no hospital. A morte ocorreu cerca de 13 horas após a do irmão gêmeo, Bento. Segundo os pais, os irmãos foram levados ao Hospital da Criança no dia 27 de junho, com sintomas de gripe. Bento chegou durante a madrugada em estado mais grave, foi diagnosticado com bronquiolite e precisou ser intubado. Ele morreu em um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Bernardo foi levado ao hospital pela manhã. De acordo com a família, ele permaneceu por dois dias na sala de medicação e morreu na sala de estabilização, onde foi intubado. As duas médicas ouvidas pela polícia participaram do atendimento à criança. A família de Bernardo também prestou depoimento no início da semana. O delegado responsável pela investigação solicitou ao hospital o prontuário médico da criança. O documento será encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML), que fará uma análise técnica dos procedimentos adotados durante o atendimento. O relatório final de uma inspeção realizada pela Defensoria Pública deve ser concluído até segunda-feira (20). Os defensores anteciparam que foram encontradas falhas graves que podem comprometer o atendimento nas UTIs. A Defensoria Pública informou que deve acionar os órgãos estaduais e federais de fiscalização, além dos conselhos de Medicina e de Enfermagem. O órgão também pretende cobrar da prefeitura medidas emergenciais para corrigir os problemas. Caso as mudanças não sejam realizadas em um curto prazo, a Defensoria poderá entrar com uma ação judicial para exigir a adequação e a reorganização do serviço. Protesto com mais de 100 cruzes cobra respostas sobre mortes em UTIs do Hospital da Criança Protesto com cruzes cobra respostas sobre mortes em UTIs do Hospital da Criança Mais de 100 cruzes foram colocadas em frente ao Hospital da Criança Dr. Odorico Amaral de Matos, em São Luís, na manhã desta quinta-feira (16). O protesto, organizado por conselheiros tutelares e familiares, cobrou respostas sobre mortes nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) pediátricas e denúncias de possíveis falhas no atendimento. O número faz referência à quantidade de crianças que, segundo denúncias enviadas aos órgãos de fiscalização e à Ouvidoria-Geral do Sistema Único de Saúde (SUS), morreram nas três UTIs pediátricas do hospital em 2025. As denúncias afirmam que 113 crianças morreram na unidade naquele ano e que 101 desses óbitos ocorreram nas UTIs. O Ministério Público do Maranhão (MPMA), o Ministério Público Federal (MPF), a Defensoria Pública do Estado do Maranhão, o Ministério da Saúde e a Polícia Civil investigam diferentes aspectos do caso. As suspeitas aumentaram após uma mudança na gestão das UTIs. Em outubro de 2025, o Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED) assumiu o serviço por meio de um contrato com a Prefeitura de São Luís. Profissionais, familiares e a Defensoria Pública afirmam que a contratação teria reduzido o número de médicos nos plantões e permitido a atuação de profissionais sem a especialização necessária para o atendimento pediátrico. O IBMED e a Prefeitura negam irregularidades. Segundo eles, as equipes cumprem as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Veja mais abaixo o que dizem as autoridades. LEIA TAMBÉM: Defensoria Pública diz ter encontrado equipe médica insuficiente após inspeção no Hospital da Criança Auditoria do Ministério da Saúde no Hospital da Criança em São Luís dura três horas e relatório final deve sair nos próximos dias MP-MA investiga denúncia de aumento nas mortes em UTIs do Hospital da Criança, em São Luís Protesto com mais de 100 cruzes cobra respostas sobre mortes em UTIs do Hospital da Criança, em São Luís Juvêncio Martins/TV Mirante Protesto ocorre após auditorias O protesto ocorre dois dias após uma auditoria emergencial do Ministério da Saúde e um dia depois de uma inspeção da Defensoria Pública no Hospital da Criança. Na vistoria realizada na quarta-feira (15), os defensores disseram ter encontrado uma médica sem especialização em pediatria e uma quantidade de profissionais considerada insuficiente. A equipe também ouviu familiares que relataram demora no atendimento e falta de medicamentos. As constatações são preliminares e serão detalhadas em um relatório enviado à Secretaria Municipal de Saúde e à direção do hospital. Defensoria Pública diz ter encontrado equipe de médicos insuficiente após inspeção no Hospital da Criança Reprodução/TV Mirante A inspeção da Defensoria durou pouco mais de três horas e contou com representantes dos núcleos de Defesa da Saúde e da Criança e do Adolescente. A equipe analisou as escalas médicas, a disponibilidade de medicamentos e materiais e as condições de atendimento às crianças internadas. O defensor público Davi Veras afirmou que a situação encontrada reforçou preocupações apresentadas antes da contratação do IBMED. "Ficou claro algumas questões. Primeiro, parte da equipe não é especialista. Nós identificamos uma médica que não era pediatra. A quantidade de médicos, para os padrões das regulamentações, é insuficiente, não atende à demanda e isso, claro, vai comprometer de alguma forma a assistência", disse o defensor. A Defensoria ainda deverá verificar a formação, o registro profissional e a função exercida pelos trabalhadores citados antes de concluir se houve descumprimento das exigências técnicas. A instituição também investiga uma possível subnotificação de casos. Segundo Davi Veras, a análise de prontuários e documentos da unidade será necessária para verificar se todos os casos foram registrados corretamente. O defensor também investiga possíveis falhas na assistência, como erros na administração de medicamentos e atendimento por profissionais sem especialização em pediatria. Os casos ainda precisam ser confirmados por meio de análises técnicas e depoimentos das famílias. Ministério da Saúde faz auditoria emergencial Auditoria do Ministério da Saúde no Hospital da Criança em São Luís dura três horas e relatório final deve sair nos próximos dias Reprodução/TV Mirante Na terça-feira (14), uma equipe do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (DenaSUS), enviada de Brasília, fez uma visita técnica de aproximadamente três horas ao Hospital da Criança. O diretor do DenaSUS, Rafael Bruxellas, afirmou que a auditoria não fazia parte de uma fiscalização de rotina. Segundo ele, a ação foi motivada por denúncias enviadas por familiares à Ouvidoria-Geral do Sistema Único de Saúde (SUS). Os relatos apontavam um possível risco à vida de crianças em situação de vulnerabilidade. Os auditores deverão analisar prontuários, contratos, escalas de trabalho, registros de internação, indicadores de mortalidade e notificações inseridas nos sistemas do SUS. Caso encontre problemas que exijam correção imediata, o DenaSUS poderá emitir alertas e recomendar que a Prefeitura de São Luís apresente um plano de emergência. O relatório também poderá ser enviado às autoridades responsáveis pelas investigações criminais caso sejam encontrados indícios de que crianças morreram por falta de assistência ou atendimento inadequado. Durante a visita, o departamento informou que pretendia divulgar as conclusões após comparar os dados recolhidos. Denúncias questionam contrato das UTIs Defensoria diz que alertou Prefeitura sobre falhas em contrato das UTIs pediátricas A Defensoria Pública acompanha, desde 2025, o processo de contratação da empresa responsável pelas UTIs. Segundo Davi Veras, a Secretaria Municipal de Saúde foi notificada em 4 de agosto daquele ano sobre possíveis falhas no edital. O IBMED começou a administrar as unidades em 13 de outubro de 2025. Uma das suspeitas é de que existam diferenças entre o edital e o Estudo Técnico Preliminar elaborado pela própria Secretaria Municipal de Saúde. Segundo a Defensoria, o estudo previa uma equipe diferente da que foi adotada no contrato. O hospital tem três UTIs: duas com dez leitos e uma com nove. A Defensoria afirma que o planejamento técnico considerava cada UTI separadamente e previa um número maior de médicos responsáveis. O contrato, porém, teria considerado os 29 leitos como uma única unidade para calcular a quantidade de profissionais. Funcionários e ex-funcionários do hospital afirmam, sob condição de anonimato, que as três UTIs tinham uma equipe formada por 53 médicos até 12 de outubro de 2025. Segundo os relatos, oito profissionais trabalhavam pela manhã, seis à tarde e seis à noite. Após a troca de gestão, alguns plantões teriam passado a funcionar com apenas três médicos ao mesmo tempo, um em cada UTI. Os denunciantes também afirmam que parte dos novos médicos plantonistas não teria experiência ou especialização em pediatria. Eles relatam possíveis erros em receitas médicas, falta de materiais e medicamentos e dificuldades durante procedimentos de emergência. As acusações ainda dependem da análise de prontuários, escalas e depoimentos. Até o momento, não foram confirmadas em um relatório conclusivo. Davi Veras afirmou ainda que, antes da assinatura do contrato, o IBMED teria reconhecido que não possuía uma equipe completa e tentado contratar médicos que já trabalhavam no hospital. O defensor também disse que o Hospital Universitário Presidente Dutra suspendeu o envio de médicos residentes ao Hospital da Criança por considerar que não havia condições adequadas para as atividades de ensino. Essas informações ainda deverão ser confirmadas pelas instituições citadas. Documentos apontam 65 mortes no primeiro semestre Documentos internos reunidos nas investigações apontam que 65 crianças morreram no Hospital da Criança entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2026. Desse total, 53 óbitos teriam ocorrido nas UTIs. Segundo os documentos, o número representa uma alta de 38,89% em comparação com o mesmo período de 2025. Os dados ainda precisam ser confirmados pelos órgãos responsáveis e comparados com os registros do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Outro documento citado na investigação indica que mais da metade de 31 mortes registradas em um sistema do SUS em 2025 poderia ter sido evitada. Esses 31 registros não representam necessariamente todas as mortes ocorridas no hospital naquele ano. Pais dizem que precisaram comprar materiais Pais relatam morte de bebê após 17 dias de internação no Hospital da Criança em São Luís. Reprodução/TV Mirante Um dos casos investigados é o de Otto, de 9 meses, filho de Leyciane Barbosa. Segundo a mãe, o bebê tinha paralisia cerebral, microcefalia e síndrome de West, uma condição neurológica que pode provocar crises epilépticas. A família afirma que, durante uma internação anterior, Otto foi transferido da UTI para uma enfermaria mesmo sem ter condições clínicas de deixar os cuidados intensivos. Após uma piora, o bebê foi levado a outro hospital infantil, onde se recuperou e recebeu alta. Em janeiro de 2026, Otto voltou a ser internado no Hospital da Criança com uma infecção intestinal. Os pais afirmam que houve demora na realização de exames e procedimentos. Eles também dizem que precisaram comprar luvas, sondas e um medicamento anticonvulsivante que custava cerca de R$ 600. Otto morreu após 17 dias de internação. A declaração de óbito aponta choque séptico como causa da morte. “Tenho plena convicção de que o meu filho morreu por negligência. Nunca falaram para a gente que ele estava com sepse ou pneumonia”, afirmou Leyciane. A afirmação representa a versão da família. A suspeita de negligência ainda depende de investigação técnica e não foi confirmada oficialmente. Polícia investiga mortes de irmãos gêmeos Famílias de pacientes relatam falhas no atendimento, falta de exames e redução de equipes Reprodução/TV Mirante Os gêmeos Bento e Bernardo, de 4 meses, foram levados ao Hospital da Criança em 27 de junho com sintomas de gripe. Eles receberam diagnóstico de bronquiolite, uma infecção que atinge as pequenas vias respiratórias e pode causar dificuldade para respirar, principalmente em bebês. Segundo os pais, Samila dos Santos Lobato e Ismael, Bento apresentava o quadro mais grave. Bernardo teria permanecido inicialmente na sala de medicação. Durante a internação, porém, o estado de saúde dos dois bebês piorou. Bento sofreu duas paradas cardiorrespiratórias. Ele foi transferido para uma UTI, mas morreu. O atestado de óbito registra insuficiência renal aguda, pneumonia, pneumotórax e choque séptico. Bernardo foi intubado, mas, segundo a família, não chegou a ser transferido para a UTI. Ele morreu cerca de 24 horas depois do irmão. “É uma sensação horrível saber que levei meus filhos vivos. Eles olhavam para mim, e eu pensava que iam salvar a vida dos meus filhos, mas não”, disse Samila. O pai registrou um boletim de ocorrência. A Polícia Civil abriu um inquérito para investigar se houve falha no atendimento e identificar possíveis responsáveis. A investigação ainda não foi concluída. Profissionais denunciam redução da equipe médica Médicos, enfermeiros e técnicos ouvidos sob condição de anonimato afirmam que a redução da equipe teria afetado outros setores do hospital, além das UTIs. Segundo eles, áreas destinadas à estabilização e à permanência por períodos curtos passaram a receber pacientes graves por falta de vagas na terapia intensiva. Uma profissional afirmou que uma criança sofreu uma parada cardiorrespiratória em um leito de isolamento sem que o caso fosse percebido imediatamente. Outra denúncia aponta que duas médicas teriam enfrentado dificuldades para usar um desfibrilador durante o atendimento a um paciente, que morreu. A investigação depende da análise de prontuários, registros de acompanhamento, escalas de trabalho, protocolos e depoimentos dos profissionais envolvidos. Empresa contratada nega irregularidades O Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED), empresa contratada para gerenciar as UTIs pediátricas do Hospital da Criança, nega que tenha reduzido o número de profissionais e afirma que não há irregularidades na execução do contrato. Segundo o diretor clínico da empresa, Paulo Bayma, atualmente mais de 20 médicos integram a equipe responsável pelo atendimento na unidade. "Hoje nós temos aproximadamente 20 médicos. Trouxemos profissionais de várias regiões do Brasil que se dispuseram a vir para cá. Vieram médicos do Amazonas, do Piauí, do Ceará, de São Paulo, de vários estados, para que o atendimento médico pediátrico na nossa capital não fosse interrompido", diz o diretor. O que dizem as autoridades? Prefeitura afirma que assistência seguiu protocolos técnicos A Secretaria Municipal de Saúde de São Luís informou que a auditoria conduzida pelo Departamento Nacional de Auditoria do SUS (Denasus) ainda está em andamento e que todas as informações solicitadas estão sendo fornecidas ao órgão. A secretaria afirmou que se solidariza com a dor das famílias e reiterou que os dados apresentados anteriormente foram extraídos de prontuários e relatórios médicos. O órgão também informou que, mediante autorização dos familiares, poderá disponibilizar os documentos oficiais e destacou que a assistência prestada aos pacientes seguiu os protocolos técnicos e assistenciais vigentes, com condutas adotadas conforme a evolução clínica registrada de cada criança. Prefeitura diz que vistoria da Defensoria ocorreu sem aviso prévio Sobre a vistoria realizada pela Defensoria Pública do Estado no Hospital da Criança, a Secretaria de Saúde afirmou que a visita ocorreu sem comunicação prévia ao órgão, diferentemente de inspeções institucionais realizadas pelo Ministério da Saúde. Ainda assim, segundo a secretaria, a equipe da unidade recebeu os representantes da Defensoria e prestou as informações solicitadas. A pasta ressaltou que o Hospital da Criança é uma unidade de alta complexidade e que, por isso, o acesso às áreas assistenciais deve seguir critérios técnicos relacionados à segurança dos pacientes, controle de infecções e continuidade do atendimento. A Secretaria informou ainda que aguarda a apresentação dos apontamentos da Defensoria, já que, segundo o órgão, não houve comunicação prévia sobre o objeto específico da inspeção e, até o momento, não foram disponibilizadas informações sobre eventuais irregularidades identificadas durante a visita. Prefeitura nega omissão de dados A Prefeitura de São Luís negou que haja desabastecimento generalizado de insumos e medicamentos no Hospital da Criança. A gestão municipal admitiu, no entanto, que podem ocorrer reduções pontuais nos estoques em períodos de alta demanda. Nessas situações, segundo o município, são realizados o remanejamento interno de materiais ou a substituição de medicamentos por produtos equivalentes. Sobre a segurança e a qualidade do atendimento, a prefeitura afirmou que monitora as UTIs pediátricas para evitar a interrupção dos serviços ou o fechamento de leitos. A administração municipal também destacou o papel regional do Hospital da Criança. Segundo a prefeitura, a unidade realiza cerca de 10 mil atendimentos por mês e 71% dos pacientes internados no primeiro semestre deste ano vieram de municípios do interior do Maranhão. A Prefeitura de São Luís também negou que omita informações do Sistema Único de Saúde e afirmou que todas as mortes registradas no hospital são notificadas oficialmente ao Sistema de Informações sobre Mortalidade. De acordo com a gestão municipal, eventuais diferenças entre os dados locais e as informações disponíveis nos sistemas públicos federais são provocadas por atrasos no processamento e na atualização da base nacional. Ao contrário do que aponta a denúncia investigada pelo Ministério Público, a prefeitura informou que não houve aumento expressivo no número de mortes no Hospital da Criança. Segundo o município, houve uma variação de 4,5% entre 2024 e 2025. O número de óbitos passou de 112 para 117 no período. A gestão municipal também afirmou que o quadro de profissionais das UTIs atende integralmente às exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. A prefeitura reforçou ainda que não existem registros oficiais de desabastecimento generalizado e que o fornecimento de materiais hospitalares segue um planejamento contínuo. Contrato com o IBMED Sobre a contratação do Instituto Brasileiro de Serviços Médicos, o IBMED, a Prefeitura de São Luís afirmou que a licitação e o contrato cumprem rigorosamente a legislação. O município declarou ainda que o Tribunal de Contas do Estado negou os pedidos de suspensão do contrato e arquivou as representações apresentadas contra a administração municipal. Conselho Regional de Medicina O Conselho Regional de Medicina informou que acompanha a situação das UTIs pediátricas do Hospital da Criança. Segundo o órgão, o objetivo é garantir a segurança da assistência prestada aos pacientes e as condições de trabalho dos médicos. O conselho afirmou que atua conforme a legislação e que adotará as medidas cabíveis caso sejam identificadas irregularidades. Ministério Público Federal O Ministério Público Federal informou que recebeu a denúncia sobre a situação do Hospital da Criança. O caso será analisado por um procurador da República, que vai avaliar a adoção das medidas necessárias para apurar os fatos. Ministério da Saúde O Ministério da Saúde informou que já apura as denúncias encaminhadas à Ouvidoria do SUS sobre as mortes registradas no Hospital da Criança, em São Luís. Uma equipe do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde, o DenaSUS, foi enviada à unidade para analisar a situação das UTIs pediátricas e verificar as informações apresentadas nas denúncias.