Bayer apresenta recurso na Suprema Corte dos EUA em processo sobre agrotóxico glifosato
Herbicida Roundup a venda em Encinitas, Califórnia, EUA Reuters / Mike Blake A Suprema Corte dos Estados Unidos começou a analisar nesta segunda-feira o recur...
Herbicida Roundup a venda em Encinitas, Califórnia, EUA Reuters / Mike Blake A Suprema Corte dos Estados Unidos começou a analisar nesta segunda-feira o recurso da Bayer AG para barrar milhares de processos que acusam a empresa de não alertar consumidores de que o princípio ativo do herbicida Roundup causa câncer. A Bayer recorreu de uma decisão de um júri em um tribunal estadual do Missouri que condenou a empresa a pagar US$ 1,25 milhão a John Durnell. Ele afirmou ter sido diagnosticado com linfoma não Hodgkin após anos de exposição ao glifosato, substância presente no Roundup. 🗒️Tem alguma sugestão de reportagem? Envie para o g1 Paul Clement, advogado que representa a Bayer, disse aos juízes que a legislação federal que regula pesticidas impediria que ações baseadas em leis estaduais, como a movida por Durnell, avançassem na Justiça quando tratam da obrigação de advertência ao consumidor. Vídeos em alta no g1 A empresa alemã, que atua nos setores farmacêutico e agrícola, argumenta que a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) concluiu repetidas vezes que o glifosato não causa câncer e aprovou os rótulos do produto sem qualquer alerta desse tipo. “Um júri do Missouri impôs uma exigência de alerta sobre câncer que a EPA não faz. Essa exigência adicional é preterida”, afirmou Clement. Segundo ele, o Congresso deixou claro que buscava padronização nas advertências de segurança presentes nos rótulos de pesticidas. Ignorar essa diretriz, disse o advogado, abriria espaço para uma avalanche de processos e colocaria em risco os interesses de agricultores que dependem de produtos registrados em nível federal para garantir sua renda. De acordo com a Bayer, mais de 100 mil autores já entraram com ações em tribunais estaduais e federais nos Estados Unidos alegando relação entre o produto e o câncer. A empresa afirma que uma decisão favorável da Suprema Corte pode encerrar a maior parte dos processos envolvendo o Roundup. Associações ligadas ao agronegócio apoiam a empresa no caso, assim como o governo do presidente republicano Donald Trump. Do outro lado, entidades ambientais, representantes de trabalhadores rurais e grupos de saúde pública apresentaram manifestações em apoio a Durnell. Bayer anunciou que fechou acordo pela compra da Monsanto Marco Bello/Reuters/Arquivo; Brendan McDermid/Reuters/Arquivo Glifosato retirado do uso doméstico A Bayer passou a controlar o Roundup após a compra da empresa de agroquímicos Monsanto por US$ 63 bilhões, em 2018. O volume de processos levou a companhia a retirar o glifosato da versão do produto voltada ao consumidor doméstico. A empresa também afirmou que as ações judiciais podem comprometer sua capacidade de fornecer o herbicida aos agricultores. Causando, então, o risco de indenizações bilionárias. A Bayer anunciou em fevereiro uma proposta de US$ 7,25 bilhões para encerrar dezenas de milhares de processos atuais e futuros. Segundo a empresa, o acordo não abrange ações que ainda estão em fase de recurso nem aquelas que ficam fora dos termos negociados, que somariam quase US$ 1 bilhão. O centro da disputa é uma lei federal conhecida como Lei de Inseticidas, Fungicidas e Raticidas, que regula a venda e a rotulagem de pesticidas e impede que os estados imponham exigências diferentes ou adicionais às previstas em nível federal. Essa legislação proíbe, em especial, a comercialização de produtos com rótulos considerados enganosos, quando não trazem alertas adequados para proteger a saúde e o meio ambiente. A Bayer sustenta que as alegações feitas por Durnell não seriam válidos justamente por causa dessa lei. A empresa afirma que a EPA aprovou repetidamente rótulos sem advertência sobre câncer, o que demonstraria que o produto não é rotulado de forma inadequada. A companhia também destaca que mudanças significativas nos rótulos dependem de autorização da agência. Os advogados de Durnell argumentam que, mesmo com o registro do Roundup pela EPA, o rótulo ainda pode ser questionado judicialmente. Eles afirmam que as ações não entram em conflito com a lei federal, pois a legislação do Missouri exige o mesmo princípio previsto na norma nacional: que os produtos alertem de forma adequada sobre seus riscos. Durnell processou a Monsanto em um tribunal estadual do Missouri em 2019, alegando que a empresa falhou ao não informar os usuários sobre os perigos associados ao Roundup e ao glifosato. Ele foi diagnosticado com uma forma rara e agressiva de linfoma não Hodgkin, um tipo de câncer que se origina nos glóbulos brancos, e atribuiu a doença à exposição ao herbicida a partir de 1996. Por cerca de 20 anos, atuou como o responsável pela aplicação do produto em áreas verdes de um bairro de St. Louis, pulverizando o herbicida em parques locais sem o uso de equipamentos de proteção, segundo documentos do processo. O júri deu razão a Durnell em 2023, e, em 2025, um tribunal de apelação estadual manteve a decisão. A expectativa é que a Suprema Corte anuncie sua decisão até o fim de junho. Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na semana passada indicou os riscos políticos para o governo Trump ao apoiar a Bayer. Segundo o levantamento, 63% dos entrevistados disseram ser contrários à proteção de empresas contra processos judiciais quando elas vendem produtos que causam câncer, mesmo que haja algum tipo de aviso sobre o risco.