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Antes do Paranismo: há 130 anos, grupo de poetas tentou encontrar a identidade cultural do Paraná por meio do misticismo

Poetas conhecidos como 'cenaculistas' buscavam uma identidade cultural para o Paraná No final do século XIX, o Paraná era um dos estados menos populosos do p...

Antes do Paranismo: há 130 anos, grupo de poetas tentou encontrar a identidade cultural do Paraná por meio do misticismo
Antes do Paranismo: há 130 anos, grupo de poetas tentou encontrar a identidade cultural do Paraná por meio do misticismo (Foto: Reprodução)

Poetas conhecidos como 'cenaculistas' buscavam uma identidade cultural para o Paraná No final do século XIX, o Paraná era um dos estados menos populosos do país. Enquanto Bahia e Minas Gerais ultrapassavam um milhão de habitantes, a então província paranaense contava com uma população de pouco mais de 120 mil pessoas, de acordo com o censo demográfico de 1872. Número bem inferior aos 11,8 milhões de habitantes de hoje. À época, o Paraná dava passos curtos no contexto criativo, sem grande incentivo às artes e vivendo na ausência de uma identidade cultural própria que o projetasse nacionalmente. Atualmente, é pacífico o pensamento de que esse problema encontrou solução a partir do Paranismo, movimento que, entre 1920 e 1930, trouxe produções artísticas que destacavam os símbolos do Paraná -- o pinhão, a erva-mate, a gralha azul -- que hoje fazem parte da cultura regional. Mas o que nem todo mundo sabe é que, antes do Paranismo, uma agremiação de poetas se uniu para tentar solucionar a questão a partir de um outro movimento, o Simbolista, que à época se concentrava na França e era focado na representação de ideias através de símbolos, utilizando musicalidade e linguagem vaga para explorar questões como a subjetividade e o misticismo. ✅ Siga o canal do g1 PR no WhatsApp No Paraná, o Simbolismo foi projetado pelos poetas Dario Vellozo, Silveira Netto, Júlio Pernetta e Antônio Braga, que estavam incomodados com o escanteio do Paraná nas discussões culturais e intelectuais, especialmente em Curitiba. Em 1895, o quarteto fundou a revista O Cenáculo para publicações literárias diversas: poemas, ensaios, críticas, textos traduzidos do francês e artigos por autores convidados de outros estados e países. A revista teve vida curta e foi descontinuada em 1897, mas a ambição dos cenaculistas em criar um canal para a discussão artística no Paraná resultou em efeitos que se perpetuaram. Primeira edição da revista O Cenáculo, de 1985. Reprodução/Biblioteca Nacional Leia também: Investigação: Homem joga gasolina e incendeia vereador dentro de comércio Trânsito: Menina morre e padrasto desaparece após caminhão cair em represa Pesquisa: Moro tem 35%, Requião Filho 18% e Greca 15%, mostra Quaest A relevância dos simbolistas na busca por identidade Da esquerda para a direita, Dario Vellozo, Antônio Braga, Silveira Netto, Júlio Pernetta. Reprodução De acordo com a professora e pesquisadora da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) Silvia Mello, as discussões fomentadas pelos cenaculistas no contexto simbolista abriram espaço para a ideia de uma cultura própria paranaense. "Eles costumavam acreditar que o que sobrevive ao tempo é a arte, a literatura. O tempo corrói tudo, mas aquilo que ficou do passado são os grandes textos, a arquitetura, a pintura. Então eles têm essa ideia de que se fazer um Paraná grande passava muito pelo desenvolvimento das artes", explica. O movimento que os poetas apoiavam existia em oposição ao modernismo e ao realismo da época. Eles buscavam força no oculto, no pessimismo em relação ao futuro e em elementos sensoriais. Os poetas Charles Baudelaire, autor de "As Flores do Mal", e Arthur Rimabaud, conhecido pelo poema "Uma Temporada no Inferno", são figuras fundamentais das diferentes fases do movimento. Na importação para o Paraná, a corrente artística passou a adquirir características próprias. Segundo a pesquisadora Silvia, o simbolismo paranaense incorporou muitos sentimentos do contexto histórico da época. "A tendência do simbolismo europeu é uma estética mais universalista. No Paraná, os intelectuais acabam construindo uma estética mais comprometida com a identidade, que é uma preocupação que você não encontra no âmbito europeu, porque ele já estava desenvolvido. Apesar do simbolismo estar na contramão da modernidade, aqui no Paraná ele ganha um pouco desses contornos", completa. Ainda que o movimento integrasse aspectos do otimismo que o progresso causava em todo o Brasil, a desilusão com a modernidade seguiu predominante. Vivendo na época da Revolução Federalista, os cenaculistas paranaenses não escondiam, especialmente, o mal-estar causado pela guerra. Trecho do poema Missa Negra, de Silveira Netto, publicado na 4ª edição d'O Cenáculo. Reprodução/Biblioteca Nacional. Influência da Revolução Federalista Dario Vellozo, Silveira Neto, Júlio Perneta e Antônio Braga tiveram um forte envolvimento com a política da época. A Revolução Federalista, guerra civil que começou no Rio Grande do Sul e logo se expandiu por toda a região Sul, coexistiu com a revista O Cenáculo. O conflito violento dividiu os republicanos, ou pica-paus, que defendiam maior poder do presidente da república recém- instituída, e os federalistas, popularmente chamados de maragatos, que estavam a favor da descentralização do poder entre os estados. Para Silvia, isso influenciou completamente o tom e as temáticas predominantes na escrita dos poetas. "O Júlio Pernetta chegou a pegar em armas. O Dário Vellozo era da Guarda Nacional e o Silveira Netto era simpatizante dos legalistas. Eles não estão apartados da guerra", lembra. "E eu acho que isso é mais um elemento que faz o simbolismo paranaense especial. Porque a gente tem poetas que viveram uma angústia social". Apesar de não serem reconhecidos como os responsáveis por criar a identidade cultural paranaense, os cenaculistas representaram um movimento de ascensão, especialmente do intelectualismo, antes reservado às elites, entre classes populares. Os próprios poetas não pertenciam à alta sociedade -- eram tipógrafos, filhos de operários, funcionários públicos --- e conquistaram influência graças às publicações que faziam. "Quem pensava no Paraná? Quem produzia no Paraná? Eram os filhos das elites. A proliferação dos jornais torna um pouco mais democrático o debate sobre a palavra, você amplia o número de leitores, amplia o número de escolas", afirma Silvia. "A geração simbolista e na sequência a geração paranista marcam muito os elementos que vão dar identidade ao Paraná naquele contexto específico, mas que ainda hoje a gente muitas vezes retoma. Nomes de ruas, nomes de praças. Novos movimentos do Paraná também muitas vezes os retomam e vão beber nessas águas", completa. Atualmente, os nomes de Dario Vellozo, Silveira Netto, Júlio Pernetta e Antônio Braga nomeiam praças, ruas e espaços culturais de Curitiba. *Assistente de produtos digitais do g1 Paraná, sob supervisão de Caio Budel. VÍDEOS: Mais assistidos do g1 Paraná Leia mais notícias do estado em g1 Paraná.